quarta-feira, 29 de junho de 2016

A pilhagem dos corações solitários

Imagem: Chris Jackson / GettyImages

By Clara Soares

Vilões hábeis na arte de seduzir usam identidades falsas nas redes sociais e prometem amor com intenções fraudulentas. Se está nos 'entas' e disponível para amar, saiba como evitar cair no ‘golpe do baú’

Aparecem de mansinho nas redes sociais de networking ou no Google+. Do seu perfil consta apenas uma foto e, na secção ‘Amigos’, uma série de mulheres ou de homens, sem mais nenhum conteúdo. Apresentam-se, quase sempre, como militares americanos, com qualificações universitárias e em missão num país em guerra (Afeganistão, por exemplo). É comum adicionarem a potencial vítima à sua rede de contactos e interagirem com ela de forma elogiosa e disponível. Quase sempre, pedem o email e tomam a liberdade de forjar uma narrativa à medida: por exemplo, viúvos à procura de conforto ou até um amor para partilharem os anos dourados da reforma, que está prestes a chegar. Alimentam a troca de mensagens íntimas durante semanas, meses, por vezes anos, valendo-se da mestria na arte da sedução à distância. E, numa fase posterior, de refinadas técnicas de manipulação e chantagem, alicerçadas em velhos clichés.

A PAIXÃO NÃO TEM IDADE”

Quem são estes homens e mulheres? Regra geral, uns e outros operam na sombra, a partir de países africanos (Nigéria, principalmente) e são pródigos na arte de enganar e extorquir dinheiro a quem cair na burla. Procuram cativar presas fáceis, sobretudo nas faixas etárias superiores aos 40 anos e, de preferência, divorciadas, sozinhas ou à procura de uma relação. Por estarem emocionalmente recetivos e vulneráveis, os visados mal se apercebem de que aquela foto da mulher bonita ou do homem com farda é falsa e quem, na verdade, a sua identidade está a ser usada para fins desonestos.
Podem até estranhar que as tentativas de contacto por videochat nunca são bem sucedidas, mas pensam: “É do cenário de guerra, das condições difíceis, é natural”. Os erros gramaticais, nada expectáveis em pessoas cultas. “Será que estudou mesmo em Harvard?”. Ou, ainda, o registo exagerado das demonstrações de afeto. No fundo, singularidades de um romance platónico alimentado pela distância. “Isto parece coisa de adolescente mas... a paixão não tem idade.”

A CONFIANÇA NÃO TEM PREÇO”

O despertar de sonhos esquecidos convida ao baixar da guarda. Fecha-se os olhos aos sinais de alarme, na esperança de viver, ainda, a promessa e o encanto de um grande amor. Acredita-se – quer-se acreditar – no improvável: aquela pessoa, lá longe, é merecedora da máxima confiança. E cede-se. Em coisas pequenas ou grandes, não importa. O envio de uma prenda. Uma foto mais ousada. Aceitar receber documentos à sua guarda temporária. Pagar despesas médicas ou passagens de avião.
A dúvida e o acumular de incongruências só entram em cena quando as sugestões se sucedem e a fasquia se eleva, mais e mais. A compra de casa no país da vítima que requer o acesso ao número de telefone e à morada fiscal. O avanço provisório de uma caução ou pagamento de taxa (fictícia) que implica o acesso à conta bancária para adiantamento de valor a reembolsar posteriormente, quando ambos estiverem juntos a cumprir o sonhado happy end.

SÓ NÃO SOFRE QUEM NUNCA AMOU”

Quando se apercebem de que se deixaram iludir pelo glamour de uma farda - ou o charme de uma Afrodite jovem e à procura de um homem sábio - é, muitas vezes, tarde demais. Veem-se então a braços com dois lutos: o de um sonho (de amor) que só existiu na sua cabeça e o das economias feitas ao longo de uma vida. Veem-se à deriva, num mar tumultuoso de sentimentos, qual deles o mais letal: frustração, vergonha, humilhação. No pior dos cenários, deprimem, querem morrer, incapazes de lidar com um fracasso em toda a linha, vivido em segredo e, uma vez revelado, sem o apoio esperado de amigos ou familiares, que terão sempre uma observação a fazer. O pior de tudo, o que mais dói, e mói, é eles não conseguirem conter aquela expressão de incredulidade. “Como foi possível? Porque é que te deixaste enredar quando estava tudo à vista?” Eles nem chegam a saber dos outros convites de amizade ou dos novos seguidores que adicionam a vítima aos seus perfis. Se caiu numa, noutra pode cair. Numa fúria sem precedentes, combate-se a dor, o fado, o desespero e, sem apelo nem agravo, bloqueiam-se estes potenciais predadores de uma assentada. Se ainda sobrarem forças, cumpra-se o ato de coragem que se impõe: seguir em frente e quebrar o silêncio.

A ESPERANÇA É A ÚLTIMA A MORRER”

Os romances fraudulentos não são de agora, mas o seu número tem vindo a subir à escala global. Só na Austrália, as autoridades (Scamwatch) registaram mais de 2 600 queixas que se traduziram em perdas financeiras próximas dos 23 milhões de dólares (até maio deste ano houve mais de 1500 queixas e as perdas ascenderam a um milhão de dólares). Nos Estados Unidos, o FBI pronunciou-se. O comunicado, emitido há três anos, esclarecia que estes scammers (ou vilões) funcionavam em grupos de crime organizado e traçava o seu perfil, ou padrão de conduta, com o intuito de minimizar danos e prevenir o pior.
Outros sites, como Fake Warriors, Romance Scams Military Romance Scams (página do Facebook), apresentam denúncias, além de questionários e dicas sobre o modo de detetar e proteger-se dos ladrões de identidades, que arrebatam corações maduros para lhes extorquírem dinheiro e posses.
A Embaixada dos Estados Unidos, em Lisboa, não comenta, embora tenha conhecimento de que estes esquemas existem. No final do ano passado, a Polícia Judiciária lançou um alerta para um procedimento criminal que se cruza, em parte, com o dos romances fraudulentos – pela exposição das vítimas online - e que dá pelo nome de “Sextortion”. Aí se pode ler que “o aumento significativo de queixas por crimes de devassa da vida privada e extorsão associados ao uso das redes sociais na Internet” tem um caráter transnacional e “um efeito psicológico altamente devastador sobre as vítimas”. Em todos estes casos, a regra é denunciar às autoridades quando o mal já está feito e, melhor ainda, antes de acontecer.

O QUE FAZER, SE FOR CONSIGO (OU COM ALGUÉM AMIGO, PRÓXIMO DE SI)?

Somos adultos, maiores e vacinados, não é? Ser do grupo dos ‘entas’ nem sempre é sinónimo de sabedoria ou de inteligência emocional, sobretudo na esfera íntima. O que precisa saber para não cair no embuste, ou seja, num romance fraudulento
1. Um(a) parceiro(a) virtual que diz namorar consigo há meses não lhe pede: a) Uma prenda, em dinheiro ou em bens; b) Que se exponha sexualmente sem se conhecerem presencialmente; c) Que se exponha sexualmente sem que tal seja recíproco (estamos a falar de pessoas maiores de idade e na casa dos 'entas')
2. Um verdadeiro militar (homem ou mulher) não precisa de: a) Obter dados seus para fazer coisas dele(a); b) Aceder à sua conta bancária ou enviar dinheiro através de si; c) Contar consigo para lhe pagar despesas médicas ou outras; d) Fazer uso da chantagem quando não satisfaz as suas demandas
3. Se acha que a pessoa que conheceu online é boa demais para ser verdade e: a) Essa pessoa vive longe e lhe declara amor e paixão depressa demais; b) Diz ser orfã(o) ou viúvo(a) ou sem familiares e amigos de confiança; c) Promete ir ter consigo mas há sempre eventos que a impedem de o fazer... Siga o seu instinto e, por mais que lhe custe, corte com a comunicação sem grandes explicações … Bloqueie o contacto (e os similares, que venha a receber online), garantindo assim que fica fora da lista de contactos de desconhecidos interessados em si e, sobretudo, que estão longe de si

"NÃO"

Por fim, terá reparado na abundância da palavra "Não" neste texto. É intencional. O "Não" pode ser afrodisíaco, sobretudo para quem tem dificuldade em usá-lo em benefício próprio. Como se o "não", em pensamentos, palavras, em gestos ou na ausência deles, fosse uma espécie de fruto proibido. Não é. Há toda uma magia na arte de negar com consciência. Só não sabe quem nunca experimentou. Negar é, por vezes, a melhor forma de afirmar. De fazer triunfar uma verdade. No caso, a sua.

ARTIGO ORIGINAL EM:http://visao.sapo.pt/

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